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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O PREÇO DA INCONSEQUÊNCIA

Olá, sou o João, aquele rapaz de vinte e três anos que acabou de morrer num acidente de moto.
            Meu acidente foi feio: um carro parou na minha frente. Eu poderia ter evitado se estivesse no limite que a rodovia pedia, mas estava em dobro da velocidade; não tive como frear.
  Quando vi o carro à minha frente, foi estranho: não consegui pensar em nada. Não consegui parar, meus sentidos sumiram e não vi mais nada.

Acordei do outro lado da pista. A pancada me fez voar por cima do veículo e cair. O capacete soltou da cabeça e minha cabeça bateu forte no asfalto. Vi o desespero do motorista que parava à minha frente, ainda na rodovia. Ele pedia desculpas insistentemente, dizia que ia entrar numa loja do outro lado e por isso reduziu a velocidade. Mas, poxa, ele podia ao menos ter ligado a seta. Não sei se adiantaria — eu estava correndo demais.

Começaram a chegar pessoas para me ajudar. Reconheci muitos rostos, mas não conseguia me comunicar. Vi o desespero deles.

O veículo de assistência da rodovia chegou correndo, sinalizando o local. Alguns vieram até mim. Verificaram meus batimentos, tentaram abrir meus olhos, mas o sangue que saía do nariz e dos ouvidos era muito. Senti o desespero do profissional. Ele ligou imediatamente para a ambulância e ficamos ali, esperando.
  Colocaram-me numa maca, um colar no pescoço, um cinto e uma capa de alumínio no corpo, e fiquei imóvel. Ao redor, inúmeras pessoas queriam ajudar, mas os curiosos eram a maioria. A empresa da rodovia não parou o trânsito: com cones, fizeram desvios, e o fluxo seguiu normalmente.

Ouvi alguém dizer: “Meu Deus, é o João, filho da dona Maria e do seu Pedro!”. Sim, era eu mesmo.

De longe, a sirene do resgate. As pessoas ficaram apreensivas até o carro encostar. O médico desceu rápido, pediu que todos saíssem de perto, abriu meu olho e com uma pequena lanterna buscou algum reflexo. Apertou meu pulso e gritou: “Vamos, o estado dele é grave, ele está muito machucado!”.

 Colocaram-me no carro, que saiu a mil para o hospital mais próximo. No caminho, percebi que a coisa não estava boa. O médico e o enfermeiro colocaram uma máscara de ar e aplicaram algo para meu coração não entrar em choque. Eu sentia o corpo todo quebrado — nem pernas nem braços respondiam, minha cabeça estava pesada, sentia meu crânio fraturado. A dificuldade para respirar, mesmo com a máscara, era enorme. Via um sinal de frustração na equipe, mas eles lutavam pela minha vida. A sirene me incomodava, o barulho era demais. Falavam em termos médicos, mas pelos gestos senti: estava morrendo.

Chegando ao hospital, uma equipe me aguardava. Tudo foi rápido. Eu só enxergava o teto, pessoas correndo e gritando. Na sala de cirurgia, senti meu coração parar. O barulho de fundo era de uma máquina que fazia bip..bip; que mede o batimento, mas parecia o som de alguém morrendo. Uma das moças pegou um desfibrilador, ligou, colocou no meu peito. Levei um baita choque — saí da maca, mas meu corpo não respondeu. Outro choque. Outra vez saí da maca. Que sensação estranha. Na terceira tentativa, o olhar deles foi de tristeza. Não conseguiram me animar. A médica anunciou o horário da morte — procedimento obrigatório. Senti a frustração em seus olhos: estavam ali para salvar vidas e acabavam de me perder. Saíram com a cabeça baixa, perdendo-se no corredor.

Veio outra equipe, tirou os equipamentos, limpou-me — eu estava todo ensanguentado —, cobriu-me. E ali fiquei, olhando para o teto.
Horas passaram. Eu ali, sem saber o próximo passo. Homens chegaram, colocaram algo no meu dedo do pé — talvez uma identificação. Empurravam a maca para dentro de uma van e me levaram a um lugar escuro e gelado. Onde estava? Fiquei horas naquele lugar. Comecei a entrar em pânico: ninguém ao lado, e tudo ficava mais sombrio.

Depois de algumas horas, colocaram-me numa mesa ainda mais gelada. Um médico veio, apalpou-me. Olhou minhas pernas, meus braços, conversou com um rapaz ao lado: “Mais uma mãe que vai chorar a morte do filho. Um rapaz novo, tinha a vida toda pela frente. Estou cansado dessa profissão — é muito jovem inconsequente tirando a própria vida. Penso nos meus filhos e netos e não desejo esse fim trágico. Espero que os familiares se recomponham. Que tristeza.”
Aquilo foi uma facada no peito. Eu havia me esquecido da minha mãe. Meu Deus, que sofrimento será para ela quando o médico disser que eu morri. E meus irmãos? Meus avós?
O médico me chamou de inconsequente. Será? Gostar de pilotar moto é ser inconsequente? Agora é tarde para discutir. Estou morto, e acabei de matar meus familiares também.

Para minha surpresa, colocaram-me num freezer. Escuridão total. Ainda bem que não tenho claustrofobia — senão morreria, mas como, se já estou morto? Fiquei ali, olhando para o nada, aguardando o que viria. De repente, um clarão. Alguém me puxou para fora. Ouvi: “Tem certeza que quer ver? Está preparado?”. Ouvi um “sim”.
Quando me descobriram, vi que era meu pai. Levei um choque — ele sempre foi ausente na minha vida, e há horas em que jogo toda a culpa nele por eu ser tão “inconsequente”. Mas o que ele fazia ali?
— Oh, meu filho, por que você fez isso? Era muito cedo para você partir. Sua mãe está destruída. Desculpe por ser tão ausente — parte da sua revolta é minha, e hoje eu também morro com você.
Haha. Quantas falsidades. Ele nunca gostou de mim, e agora que estou morto vem com esse discurso barato? Me poupe. Espero que morra com a consciência pesada por não ter sido um bom pai. Vai embora e leve essas lágrimas de crocodilo contigo, inútil.

Novamente me levaram a outro local — parecia uma funerária. Assim que cheguei, avistei familiares: minha irmã, meu avô, meu pai, meus primos. Meu pai escolhia um caixão, dizia que eu merecia algo decente.
Meus primos trouxeram roupas legais para me vestir, cobriram-me de flores. Eu estava bonito. Passaram maquiagem no rosto para disfarçar os ferimentos. De novo, fiquei trancado — agora dentro de um caixão. As flores me faziam mal, sou alérgico. Queria espirrar, mas nada saía. O local estava abafado e quente. Sensação estranha.
Não sei por quanto tempo fiquei ali. Vieram uns homens, me colocaram de novo num carro — se for somar, já devo ter rodado uns bons quilômetros. Entrei num recinto amplo, arejado, até bonito. Colocaram o caixão num suporte.

Para minha surpresa, a primeira pessoa a chegar ao meu lado, amparada pelos familiares, foi minha mãe. Meu Deus, que tristeza.
Ela simplesmente caiu sobre meu corpo e chorou muito. Passava a mão nos meus cabelos, pedia que eu acordasse. Sacudia meu corpo, gritava desesperada. Eu ali, imóvel, vendo tudo e sem poder fazer nada, comecei a refletir sobre minha vida. Nenhuma mãe está preparada para enterrar um filho, e eu permiti essa desgraça na vida dela. Que sofrimento vê-la daquele jeito. Como será sua vida daqui para frente? Por que fui tão inconsequente? Poderia ter seguido seus conselhos — ela sempre dizia: “Vai devagar, essa estrada é perigosa”, “Olha, fulano morreu de acidente de moto, toma cuidado”. Eu sempre pensei que comigo nada aconteceria. Afinal, sempre fui o fodão.

Minha mãe foi levada para um canto da sala. Os demais familiares chegaram, chorando ao redor do caixão. Até o João, safado, que me devia dinheiro, estava desolado em cima do caixão. Poxa, quanta gente veio dar o último adeus. Fiquei até emocionado. Não imaginava que era tão querido. Meus familiares estavam abalados — eu não tinha noção de quanto era amado.
Horas passaram. Todos foram embora, e eu, de novo, fechado no caixão, contemplando o aroma das flores, a vontade de espirrar e a escuridão.

Novamente enxerguei a luz. Abriram a tampa, e lá estava eu. Muitas pessoas ao redor, meus amigos inseparáveis chorando sem parar. E lá vinha, outra vez, minha mãe.
— Filho, saiba que a mamãe te ama. Não sei como será minha vida daqui para frente. Não sei se terei forças para enfrentar o dia a dia com sua ausência.
    Aquela palavra me matou de verdade.

Todos aos prantos, fecharam o caixão com um baque surdo que ecoou dentro de mim. Movimentaram-me, o mundo balançando sob as mãos que carregavam meu último abrigo. Céu aberto, nuvens pesadas, ar frio que eu já não sentia. Uma procissão silenciosa, interrompida só por soluços.

Desci.
   Lentamente, o vazio do buraco me engoliu. Terra começou a cair — primeiro um punhado, depois uma enxurrada de sombra. Grãos batiam na madeira como chuva de pedras. Escuridão total, peso crescente, o mundo lá fora ficando cada vez mais distante.

E então, a última pá. O último toque de luz sumiu. Só restou o cheiro de terra úmida, o aperto das paredes invisíveis, e o silêncio — aquele silêncio que não é paz, é ausência.

E eu, no escuro, afundado no meu próprio erro, percebi que aquela escuridão não era só a da cova. Era a que eu tinha deixado dentro dela.

Chorei.
    Chorei sem lágrimas, sem som, sem ar.
    E num último suspiro de alma que nem corpo tinha mais, sussurrei para o nada — e torci que, de algum modo, o vento levasse até ela:

— Mãe… me perdoe.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

ENTRE REZAS E RESSACAS: QUANDO A FÉ VIRA COBRANÇA


Em um bar do sertão, fazendo um calor de rachar, perto das dez da manhã, dois amigos se encontram:


— E aí, Richardson, que que cê tá fazendo aqui tão cedo?
    — O mesmo que você, Claudemir: bebendo pra esquecer os problemas.
         — Ah, pára com isso! Problema é coisa que a gente inventa!
    — Como assim, inventa? Claro que existe! Meu carro quebrou.
    — É porque você não fez a manutenção adequada!
    — Minha casa tá sem luz.
    — É porque você não pagou a conta! 

— Já pedi pra Deus e a todos os santos me ajudar!

— Tá vendo? Você mesmo causa suas desgraças. E ainda fica rezando pra santo, achando que eles vão resolver. Santo vai trabalhar pra pagar sua conta de luz? Deus vai capinar seu lote pra comprar sua comida? Para, né…
    — Para de falar besteira! Eu rezo porque tenho fé, e Deus não me abandona.
    — Besteira? Você que tá aqui gastando dinheiro com cachaça enquanto sua mulher tá lá, quebrando as costas na roça. E quando ela chega, você ainda pede o dinheiro dela pra vir pro bar. Lembra quando o Donias te deu um soco? Você sentou no chão chorando e gritando: “Deus, me ajuda a revidar!”. Que ridículo! Você bota Deus em tudo, como se Ele fosse seu empregado. Tem gente doente rezando em silêncio, sem berrar, e você aí fazendo escândalo. Deus gosta de quietude, não de barulho!
    — E o senhor Jorge, que fica bravo quando os jovens ligam o som alto, mas ele mesmo faz um alvoroço na rua quando começa a pregar? Você acha que Deus gosta disso? Ele quer humildade, oração baixa, sem perturbar os outros.
    — Tá bom, tá bom… Hoje você acordou chato. Vou embora, vou ver se minha mulher já voltou do serviço, quem sabe ela trouxe um dinheiro… Se Deus quiser, mais tarde eu volto e a gente toma mais uma.

    E quando Claudemir saiu, Richardson só balançou a cabeça, pediu outra dose e murmurou as mesmas rezas de sempre. Nada daquela conversa tinha adiantado.


terça-feira, 15 de outubro de 2024

A LUTA PELA ATENÇÃO FAMILIAR NA ERA DOS SMARTPHONES

 

Então, Maria levantou cedo como de costume aos domingos, foi à padaria comprar pães e frios e depois passou na feira comprar frutas, verduras e legumes. Mas aquele não era um domingo qualquer; era o aniversário do Pedro, seu marido. 

O dia estava lindo, com ar fresco, porém ensolarado, e lá foi Maria, alegre ao seu destino. Fez suas compras, voltou para casa e preparou "aquele" café da manhã para o seu marido e seus dois filhos.

Lá pelas nove horas, o café já estava na mesa, mas ninguém havia acordado. Maria aguardou mais um pouco, afinal, todo mundo gosta de dormir até tarde aos domingos.

Dez horas e nada. Ainda estavam dormindo...

Maria já estava impaciente, então, com cautela, bateu na porta do quarto dos filhos e lá estavam eles no celular. Chamou-os para tomarem café, e eles responderam grosseiramente: — Não enche, mãe, não está vendo que estamos jogando?

Maria abaixou a cabeça e foi para o quarto em que o marido estava. Chegou toda feliz e lhe disse: — Parabéns, meu amor. Que Deus lhe abençoe sempre. — Só que Pedro não gostou do que ela disse e esbravejou: — Você poderia ao menos ter batido na porta para avisar que está entrando, não está vendo que eu estou ocupado aqui no celular?

Maria pediu desculpas, fechou a porta e foi embora. Triste e sem entender tais comportamentos, foi até a casa da sua vizinha. Bateu na porta e Joana veio ao seu encontro:— Bom dia, Maria. Tudo certo para o almoço de aniversário do Pedro? 

— Não, Joana. Não tem nada certo. Fui à feira, à padaria, fiz uma mesa linda de café da manhã e ninguém quis tomá-lo porque estavam ocupados no celular. Eu não aguento mais essa vida. O celular entrou na minha casa para acabar com a nossa família. Pedro diz que está estudando, mas estudando o quê se ele não sabe ler ou escrever? Não estou entendendo o que está acontecendo com o ser humano.

— Maria, não fique assim, aqui em casa as coisas não são diferentes. O meu marido retrocedeu vinte anos; ele pensa que está aprendendo alguma coisa, mas, na verdade, ele desaprendeu tudo. Os pais dele lhe ensinaram a ser educado, solícito, humano, e agora ele perdeu todos esses princípios. Ele anda pela casa como se fosse um zumbi, com o fone de ouvido, não vê e não ouve nada ao seu redor. O seu corpo está se definhando, as costas, curvadas. Ele está acabando com a saúde. Só me ouve quando lhe convém, quando não, me dá as costas e vai embora. Mas eu estou aprendendo a lidar com isso, infelizmente, com a mesma moeda. Faço a comida; se ele quer comer bem, que coma; se não quer, que passe fome. Não vou gastar a minha saúde e a minha vida por um homem da caverna. E quer um conselho? Faça o mesmo.

Maria ficou pensativa e respondeu: — Você tem razão, vou para casa tomar o café sozinha; farei o almoço e almoçarei. Não tenho mais tempo para me preocupar com essas adversidades; estou fazendo a minha parte e espero que cada um faça a sua. A vida é preciosa demais para ser reduzida a uma tela de celular, onde muitas vezes nos distraímos com inverdades e perdemos momentos valiosos. Tenho minhas próprias convicções e não posso deixar que a opinião dos outros ditem meu caminho. Cada um deve trilhar sua jornada com autonomia. Vou seguir o seu conselho, Joana. Vou viver minha vida da melhor maneira que posso, valorizando quem realmente importa.

De volta à sua casa, Maria olhou para a mesa do café da manhã intocada. Sentou-se, pegou uma xícara de café e, em silêncio, começou a comer. Um sorriso leve surgiu em seu rosto. O mundo ao seu redor pode estar absorvido pelas telas, mas ela ainda sabia como apreciar os pequenos momentos. E naquele instante, escolheu não se perder neles também.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

ESPELHO, ESPELHO MEU: O SUBCONSCIENTE DITANDO AS REGRAS

 

Imagine a cena: você está se preparando para uma noite de diversão com os amigos e capricha no visual, escolhendo cada peça que combina com seu estilo. Opta por uma blusinha florida, toda colorida, uma calça preta, brincos de argola médios, e um scarpin preto. De repente, surge a crítica mais severa que existe — e olha que ela nem foi convidada! A voz do subconsciente, que deveria estar de plantão cuidando dos sonhos e das memórias esquecidas, resolve se meter na moda.

— Olha que modelito chamativo, é assim que você quer se apresentar na festa? — zomba a vozinha interior.

Com a autoestima que estava lá no alto, tipo um arranha-céu, você a vê despencar como um elevador sem freio. Mas você não desiste fácil; é uma guerreira da moda!

— Estou me sentindo uma diva, maravilhosa, e ninguém vai me convencer do contrário! — você retruca, se olhando no espelho.

— Maravilhosa ou cafona? Tudo bem que você gosta de se destacar, mas esse seu estilo superou qualquer carnavalesco — continua zombando a voz interior.

Dominada pela autocrítica, você começa a se autoanalisar em frente ao espelho e, com um ar de quem já perdeu, resolve trocar de roupa: coloca uma, tira outra. E se fosse com essa? Ou aquela? Você começa a girar diante do espelho, buscando ângulos onde só um subconsciente imaginativo poderia ver defeitos.

— Que tal vestir algo mais sóbrio? Quem sabe um pretinho básico que nunca faz feio? — insiste a voz severa.

Você cede, coloca uma blusinha preta, um acessório mais discreto e dá uma última olhada. Ainda não é a mesma coisa, mas a vozinha já está satisfeita: — Assim está ótimo! Agora você vai arrasar na passarela da vida real!

Após esse embate interno, você sente que a energia para a noite já não é a mesma. Com um sorriso que tenta disfarçar a frustração, você alcança o telefone e faz a ligação que preferia evitar: — Oi, amiga, sobre o nosso programa de hoje... Acho que vou precisar remarcar. Acabei me envolvendo numa sessão de autoanálise fashion bem intensa aqui, e agora preciso de um tempo para reavaliar meu estilo e meu ânimo. Que tal a gente se encontrar quando eu estiver pronta para brilhar de novo?

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

NAS PROFUNDEZAS DO LUTO

Imagine-se andando por um bosque lindo, cheio de árvores, flores e um lago repleto de peixes coloridos. Abelhas polinizam as flores enquanto os pássaros cantam alegremente. É um lugar encantador. Você caminha, aprecia a beleza, sente o perfume das flores, alimenta os patos, joga pedras no lago e aproveita tudo o que a natureza oferece naquele momento. 

À medida que segue em frente, olhando para a beleza da natureza e com a certeza de que estava blindada das coisas ruins, algo inesperado acontece. Você pisa em um buraco, uma armadilha do destino, e, sem conseguir controlar o peso do corpo, despenca descontroladamente. Durante a queda, você perde o controle do corpo e da mente, incapaz de pensar em qualquer coisa, apenas sente-se caindo em um poço profundo, sem a menor ideia do que encontrará no fundo. Enquanto continua a cair, flashes da sua vida passam pela sua mente: risadas, lágrimas, vitórias, derrotas — é como se estivesse assistindo a um filme. E, com a rapidez de um raio, você continua a despencar. Sem saber quanto tempo a queda vai durar e sem imaginar a dor que o impacto causará, você continua a despencar.

Então, você finalmente atinge o fundo do poço. O impacto é forte, como se um meteoro tivesse caído na Terra. Você fica paralisada, incapaz de se mover, com apenas os olhos ainda funcionando. A dor é tão intensa que paralisa sua respiração, e ofegante, você luta para conseguir um pouco de ar. Respirar, após o impacto, não é uma tarefa fácil. Seus olhos estão arregalados e seu cérebro luta para retomar o controle, enquanto você tenta desesperadamente capturar algum ar — afinal, você precisa sobreviver, não é mesmo?

Seus membros começam a se mexer, o que é um bom sinal. Sua mente, lentamente, volta ao normal, e você percebe que realmente está no fundo dum poço. Chegou ao limite, e agora terá que lutar para voltar ao lugar de onde veio, mas como? Aquele local é verdadeiramente assustador, o que chega a dar calafrios. Há um cheiro de enxofre no ar, musgos e terra úmida cobrem o solo, onde apenas alguns insetos sobrevivem. Ainda deitada e olhando para o alto, você enxerga acima uma pequena circunferência iluminada, talvez pelo sol, e pensa: "Como vou ver a luz do sol novamente se não tenho forças nem para mover os olhos?" Mas, você precisa sair daquele buraco. Precisa sobreviver. Então, com muita dor pelo corpo, você se senta e tenta se levantar, mas as dores são intensas e parecem impedir qualquer movimento. Com cautela, você começa a se mexer e, aos poucos, consegue ficar de pé. Observa ao redor, mas não enxerga nada por causa da escuridão. Ao colocar a mão à frente, sente a terra úmida e os musgos. Tateando ao redor, você gira em todas as direções, tentando criar uma estratégia para subir.


A SUBIDA


A primeira coisa a fazer é ter certeza de que realmente quer sair daquele buraco, afinal, você tem uma vida para seguir. Mas então você se pergunta: será que quero seguir adiante ou prefiro permanecer aqui, neste lugar frio e escuro?

No entanto, seu subconsciente quer sair daquele lugar o mais rápido possível; ele não suporta mais vê-la sofrer. Ele sente o seu coração se dilacerando aos poucos, uma dor indescritível, como se todas as armas frias e pontiagudas tivessem seu coração como alvo, atacando-o sem dó nem piedade. A dor é intensa. Seu subconsciente luta com todas as suas forças para impedir essa dor e, ao mesmo tempo, para sair daquele lugar. Então, com cautela, ele implora para que você se fortaleça, para que se reergue. "Vamos, você consegue!"

Você o escuta e, controlando a dor no peito, começa a se arrastar contra a parede. Vai subindo devagar, cravando os dedos naquela terra úmida até as pontas sangrarem. Com insistência, lutando contra todas as forças do mal, você continua a subir. Olha para o alto e vê a luz do sol mais próxima, pensando: “Logo irei te alcançar.” E, ainda chorando de dor, você segue, porque agora quer sair, quer viver, quer sentir a alegria da vida.

Mesmo com cicatrizes profundas, ao alcançar a luz, você entende que a vida continua, e que, embora a dor nunca desapareça por completo, cada passo adiante é uma homenagem àqueles que amamos e perdemos.


terça-feira, 28 de março de 2023

VÍTIMAS OU VILÕES?

             A tecnologia, ao meu ver, tem sido um dos grandes responsáveis pelas mortes e violências causadas nas escolas. Depois que o uso excessivo de celulares invadiu os nossos lares tudo piorou, os pais não tem mais tempo para os filhos, pois, preferem ficar assistindo dancinhas no TikTok ao invés de se preocupar com a educação e a orientação deles. Quantas vezes eu já ouvi dos pais “é melhor ele no quarto do que na rua”, mas, sabemos que a realidade não é bem assim.

Com os pais ausentes, os filhos, trancados em seus quartos, se comunicam, através dos computadores e celulares, com pessoas que apresentam os mesmos sintomas e, acabam criando vínculos emocionais, pois encontrou “um amigo” com os mesmos problemas e pensamentos que o seu, iniciando assim articulações para um plano sem volta, ou seja, dar um fim àqueles que, no seu íntimo, foram os responsáveis, pelos seus “fracassos”.

A questão é, vocês já pararam para pensar como eles estão necessitando de atenção, de amor ou de algum tipo de tratamento ou, vocês preferem chamá-los de inúteis, vagabundos ou sem futuros? A questão é complexa demais, mas, pais e mães, ao notarem que seus filhos preferem o isolamento, não querem conversar com ninguém, não se alimentam ou demonstram comportamento estranho, muita atenção! Já passou da hora de deixar o celular de lado e se concentrar em cuidar deles, tragam os para a mesa de jantar e para o bate papo diário, mostrem para eles que vocês os amam incondicionalmente, não os abandonem. Se, não concordam com diversas atitudes, não gritem, não humilhem, não deixem que eles se sintam pequenos, procurem entender e respeitá-los, com auxílio e amor essa fase logo passará. Eles precisam saber que, impor regras e limites não é questão de punição e sim de amor que, no futuro irão valorizar e agradecer por tê-los socorridos a tempo.

(Sildete Pereira/Meu ponto de vista – 03/2023)

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

 

QUANDO A ESMOLA É DEMAIS, O SANTO TEM QUE DESCONFIAR

 

Percebe-se que os fraudadores e golpistas estão a todo vapor nas redes sociais, e-mails e nos aplicativos de mensagens instantâneas. Todo dia acontece relatos de que perderam dinheiro em golpes, mas você já parou para pensar que nós somos os culpados por isso acontecer?

Vejam bem, somos gananciosos “zoiudos”, não podemos ver um anúncio de um produto abaixo do preço que logo compramos, mesmo desconfiando que aquele anúncio poderá ser falso. Temos o desejo de querer levar vantagem em tudo achando que o universo conspira a nosso favor. E quando o assunto é dinheiro então, misericórdia, não levantamos dúvidas se aquela informação é real ou não, vamos logo clicando no link e passando as informações pessoais para o golpista achando que somos as pessoas mais espertas da face da terra.

Os golpistas pegam a foto de um carro lindo, um carro qualquer estacionado na rua, maravilhoso, um sonho de consumo, coloca um anúncio nas redes sociais vendendo-o pela metade da metade do preço e, nós, acreditando que aquilo possa ser real entramos imediatamente em contato com o suposto vendedor e, pronto, o plano dele está dando certo, ou seja, perdemos dinheiro por conta da nossa ignorância.

Enfim, existem centenas de golpes rondando por aí e nós, os “inocentes”, alimentando os golpistas, ensinando-os a fraudar e roubar o nosso dinheiro e o nosso psicológico. A verdade é uma só, se não levantarmos cedo e trabalharmos duro para ganharmos o nosso rico dinheirinho, morreremos de fome, pois os golpistas jamais tirarão dinheiro do próprio bolso para nos ressarcir, nunca venderão um carro em perfeito estado pelo preço de um carro velho, ou anunciarão um produto abaixo do preço de custo.

Portanto, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém, é importante ficarmos atentos a tudo, não devemos nos deixar cair em tentação por algo que, na maioria das vezes, nem estamos precisando. Infelizmente chegamos em um estágio que devemos desconfiar de tudo e de todos, principalmente quando a esmola é demais. Fica a dica!